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Sniper Americano - Altruísmo Mortífero

Publicado em 17/12/2020 - 10:02 Por Dra. Gabriela Lein - Artigo editado em 17/12/2020 - 11:57
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Créditos da imagem: Internet
Assisti recentemente ao Sniper Americano, filme lançado em 2015, sobre Christopher Scott Kyle, o franco atirador mais letal da história dos EUA. Chris serviu durante a ocupação do Iraque, sendo condecorado várias vezes por atos de heroísmo, mérito e bravura em combate. 

Mas a história desse “menino” me saltou aos olhos desde o registro da sua infância. No início do filme, o pai o ensina sobre o que, para ele, são os tipos de pessoas que existem:  lobos (agressivo por natureza), ovelhas e cães pastores. E segue advertindo os filhos: 
- Não admito que vocês não sejam cães pastores.

Não é de se admirar quem esse mesmo menino se tornou. Mas a questão que fica é: a que custo? 

Ele foi estimulado desde a infância a matar, foi estimulado a ser agressivo, mas o que mais me impressiona que ele foi ensinado a ser altruísta, pensar no outro antes de pensar em si, e isso  ocorreu no curso de toda a sua vida é mesmo, eventualmente, foi a causa da sua morte (darei spoiler!).

Durante a guerra, sua função era proteger os colegas (cão pastor, diria o pai); matou aproximadamente 200 pessoas, um exímio atirador, recebendo o apelido  de “A Lenda”.
Altruísmo alimentado por agressividade acima da média, desencadeada talvez pelo sentimento de abandono. Assim, protegia o próximo, acima de si, mas quem precisava de proteção no fim das contas era ele. 

Chegou a se por em risco por diversas vezes a fim de ajudar algum companheiro na guerra. Ao retornar para os EUA, desenvolveu um transtorno de estresse pós traumático(o que é esperado), mas o sentimento de altruísmo permanecia. Como ele poderia viver se não fosse ajudando a um outro? Protegendo a um outro? Ele se constituiu assim. E aqui questiono, pois todo excesso  esconde uma falta, e o quão desprotegido ele se sentia.
Bem, ajudando os antigos combatentes que se recuperavam de transtornos psíquicos, consequentes da guerra, foi assassinado por um deles.

Como psiquiatra, sei que somos constituídos a partir de um outro. Justamente por essa posição, sei também que permanecer em função de servir ao desejo do outro, negando o próprio, em busca da aprovação que não se dá, além de não ser admirável é devastador e letal.

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Tags: Saúde mental
 Dra. Gabriela Lein Dra. Gabriela Lein
Dra. Gabriela Lein

Gabriela Lein é médica atuante em psiquiatria, saúde de família e emergência. Atravessada pela psicanálise, há uma década atua em setor privado e público, realizando um exímio trabalho de investimento no indivíduo como cerne da vida. Visto esse modo atuante singular e impactante, promove saúde por onde passa, em âmbito nacional e internacional. Divulga seus questionamentos e inspira em suas redes sociais tanto no instagram quanto podcast, com base no conhecimento que tem do sofrimento humano real. Por aqui, semanalmente, acompanhem ela questionando o mundo em voz alta.

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