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Lugar De Fala

Publicado em 17/10/2020 - 14:00 Por Dra. Gabriela Lein - Artigo editado em 11/11/2020 - 13:52
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Créditos da imagem: Internet
Em tempos atuais, muito se diz sobre lugar de fala. Determinada pessoa não teria lugar para falar sobre aquilo que não sofreu ou sobre condição que a toca por natureza.

 Nessa linha de convicção, eu mulher, branca, de classe média, jamais poderia me manifestar (ao menos “com legitimidade”) sobre uma mulher negra da periferia que vivenciou maus tratos desde a infância, ou que enfrenta enormes dificuldades para se separar do marido que a espanca e que se vale de dependência financeira para chantagea-lá .

 Qual o seria meu  lugar de fala nessa situação? 
 Eu não tenho direito de falar porque não sou negra.
 Eu não tenho direito a fala porque nunca apanhei ou tive minha autonomia financeira ameaçada.
Será mesmo assim tão simples? 

 Com estas questões quero dizer que lugar de fala é uma coisa, menosprezo é outra. Por evidente, um sujeito não consegue em sentido totalizante falar no lugar de outro. Temos caminhos próprios, marcas, outra subjetividade. Você pode ter, por exemplo, um irmão, com mesma determinação genética que reage de modo singularmente diverso do seu diante de mesma situação concreta. Seu lugar de fala é sempre o da sua história, por mais que seja apenas contando outra história. 
Não podemos subjugar, diminuir ou calar alguém, por pré-conceito de uma situação que não se  viveu.

 Mas o lugar de escuta, bem esse sim há de ser questionado.

 Você consegue escutar a dor de outra pessoa e não comparar com as suas? 
 Consegue escutar e acolher com coração? 
 Consegue escutar e sentir compaixão pela dor que não sente? 
 Consegue dar lugar de fala para alguém e se colocar em lugar de escuta? 

 Caso tenha respondido sim, você pode e deve ter lugar de fala sobre essa situação. Melhor dizendo, sobre essa causa. 

 Voltando ao meu exemplo, eu posso não ter passado todas as amarguras que aquela mulher negra enfrentou ou enfrenta, mas quando eu a escuto realmente e me causo com a causa dela eu posso ter lugar de fala.
Porque aqui estamos falando de sofrimento, de injustiça e lutando com ela se for preciso.

 O sofrimento humano se equivale em qualquer lugar do mundo, para qualquer pessoa. Não é possível medir quem sofre mais ou menos, pela mesma régua. É covardia julgar uma dor que não se sente, mas é também covardia ver outro sofrendo ou sendo injustiçado e não fazer nada. Aqui me ponho no lugar de fala.

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 Dra. Gabriela Lein Dra. Gabriela Lein
Dra. Gabriela Lein

Gabriela Lein é médica atuante em psiquiatria, saúde de família e emergência. Atravessada pela psicanálise, há uma década atua em setor privado e público, realizando um exímio trabalho de investimento no indivíduo como cerne da vida. Visto esse modo atuante singular e impactante, promove saúde por onde passa, em âmbito nacional e internacional. Divulga seus questionamentos e inspira em suas redes sociais tanto no instagram quanto podcast, com base no conhecimento que tem do sofrimento humano real. Por aqui, semanalmente, acompanhem ela questionando o mundo em voz alta.

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