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"Fuja" e a Síndrome de Munchausen: um amor patológico

Publicado em 29/04/2021 - 12:07 Por Dra. Gabriela Lein
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Créditos da imagem: Internet

  “Fuja” é um suspense daqueles "bão demais da conta" (falando como uma boa mineira). Deixa o  espectador tenso e vidrado a cada cena, em uma sequência de vertiginosas reviravoltas que só termina em sua cena final. Então se você não viu , aviso que esse artigo terá spoiler, do princípio ao fim.

  O filme acompanha a história de Diane Sherman, que cuida de sua filha com total devoção há 17 anos, Chloe. Uma menina inteligente que sobreviveu a um parto bastante complicado, deixando-a com muitas sequelas (ou pelo menos assim pensamos…), tem asma, hemocromatose, paralisia, diabetes e arritmia, e apesar de muito independente, vive uma rotina de medicações e cuidados. Por causa da sua situação de saúde, Chloe usa cadeira de rodas e fica praticamente incomunicável com o mundo, sendo criada pela  mãe em sua casa, inclusive no que diz respeito a sua educação. Ela conhece o mundo através do que  Diane ensina, tentando transmitir que nada para  para além dela, será bom o suficiente, é seu sintoma, sua paranoia. Uma tragédia!

Já na adolescência,  ao estranhar um dos comprimidos que recebe, Chloe descobre que está sendo intencionalmente paralisada pela mãe, e a trama se dá em um ritmo de suspense, quase terror. Cada descoberta dessa menina, sobre ter sido roubada sua vida, para ser extensão da suposta  mãe. Quando digo roubada, é literalmente, foi roubada na maternidade, roubado o direito de uma vida livre, roubada seu direito individual  de sujeito desejante, com escolhas próprias. Ou quase, porque por motivos insondáveis, houve saída. A menina era inteligente, e sujeito o bastante, para buscar uma saída.
 
 Fora adoecida por um sintoma da mãe, em um gozo masoquista, que não conseguiu olhar para essa filha. Ela a ensina ser “independente” dentro daquilo que está em concordância com a sua autorização.  A menina não pode existir separada dela, a filha era um objeto. Nesse ponto, acho importante ressaltar, que Chloe, como todo ser humano, prefere a morte, que viver como objeto. E ela, se arrasta pelo telhado, se  joga pela escada, se arrisca, se movimenta a todo custo ...Uma fuga angustiante! Fica evidente que  não havia um sentido na vida dela, como um lugar de chegada. Mas como impulso para o movimento em busca da liberdade, para viver a própria vida , era o  sentido!

 Diane, possui um transtorno mental, a  Síndrome de Münchausen por Procuração  que caracteriza-se quando um dos pais, geralmente a mãe, simula a existência ou provoca sintomas ou sinais na criança e, repetidamente, a apresenta para cuidados médicos, renunciando a qualquer conhecimento sobre a causa dos sintomas. Descrita pela primeira vez em 1977 por Roy Meadow, um nefrologista pediátrico britânico, ao se deparar com duas crianças: uma havia sofrido intoxicação por repetidas doses de sal, ministradas por sua mãe e que alevaram a óbito; e outra que foi submetida a inúmeros procedimentos médicos para investigação de uma doença renal fictícia, criada pela mãe, que fornecia histórias falsas e adulterava as amostras de urina da criança, adicionando seu próprio sangue a elas. 

 Uma característica singular da SMP e que dificulta sua identificação é a postura e conduta da mãe agressora. Enquanto que em outras situações de maus-tratos uma anamnese completa revelaria distorções e equívocos no discurso do agressor, na SMP este discurso parece ser apresentado sem furos e acima de qualquer suspeita, e tão logo as suspeitas se iniciam, a mãe agressora muda de hospital para dar início a novas queixas. Observe,  no filme, inicialmente um padrão de "tudo sobe controle", a rotina da filha e a posição inabalável da mãe, quando questionada em um grupo de apoio sobre a possibilidade da filha ir para Universidade. Ela responde, sem aflição, por ter uma certeza (sinônimo de delírio, no filme e na realidade) que sua manipulação sustentaria por toda a vida. Quando isso é abalado , como na cena da farmácia, que inicia a descoberta da fraude, ao chegar em casa ela rapidamente  liga para a rede de apoio, tentando justificar toda a confusão. Esta tudo bem , tudo sobe controle. Essa mãe, sustenta a todo custo, em um delírio mesmo, a negação da filha como sujeito.  Que para não se separar dela, literalmente, paralisa suas pernas. Mas se tem algo impossível de paralisar, é o desejo de um sujeito! 



 Bem, o filme nos deixa sem ar, talvez isso foi proposital, tanto nas cenas claustrofóbicas, quando no número  reduzido de personagens, para gerar mesmo uma identificação com a menina sem ar por essa invasão materna. 

   Na última  cena,  a filha ainda vai visitar a mãe, presa, e relata como tem sido sua vida para além dela. Inicialmente fiquei confusa, qual o motivo que a levaria estar fazendo aquilo? Ainda estava presa como objeto da mãe?  Sim, pode ser, entendi ao término da mesma,, mas de um lugar diferente. O “Eu te amo mãe. Agora abra a boca.” foi o que ela conseguiu fazer, a partir do amor patológico que recebeu. Não se livrou das marcas dessa função materna, em decorrência, essa mente torturada se colocou no lugar do torturador. E  como julgar esse comportamento? Bem, para quem assistiu, não deixou de ter um gostinho bom... 



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 Dra. Gabriela Lein Dra. Gabriela Lein
Dra. Gabriela Lein

Gabriela Lein é médica atuante em psiquiatria, saúde de família e emergência. Atravessada pela psicanálise, há uma década atua em setor privado e público, realizando um exímio trabalho de investimento no indivíduo como cerne da vida. Visto esse modo atuante singular e impactante, promove saúde por onde passa, em âmbito nacional e internacional. Divulga seus questionamentos e inspira em suas redes sociais tanto no instagram quanto podcast, com base no conhecimento que tem do sofrimento humano real. Por aqui, semanalmente, acompanhem ela questionando o mundo em voz alta.

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