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A medicina é oca sobre o sujeito

Publicado em 14/07/2021 - 15:29 Por Dra. Gabriela Lein
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Créditos da imagem: Arquivo pessoal

A medicina é oca sobre o sujeito


 Eu amo ser médica, isso todos que me acompanham minimamente sabem. Mas tenho alguns incômodos com a medicina, como em qualquer relacionamento saudável. O principal é sobre um saber oco em relação ao sujeito. Essa construção se deu, observando e analisando minhas quase quatro décadas de vida. 


Sou filha de pai médico, daqueles do interior, que a especialidade era em gente, o consultório uma extensão da nossa casa. Meus pais se separaram quando eu tinha 4 anos,  morando a 600km de distância,  passava as férias e feriados escolares com ele. Sendo mais especifica, com ele e com a medicina.


Dormi inúmeras vezes nos bancos do hospital, madrugada a dentro, enquanto ele operava ou preenchia infinitas prescrições.


Há 30 anos atrás, as crianças ficavam internadas, sem a companhia dos pais. Assim, a ala infantil, era a minha preferida. Pois eu encontrava amigos para brincar no hospital. Com muitas limitações, sempre próximo ao leito, eram leituras ou jogos de tabuleiro.


Quando fazíamos algo diferente, aos finais de semana, iamos atender em zona rural, em consultórios improvisados nas salas de aulas, com carteiras e cadeiras precárias. Maca então não existia. Mas ali, eu aprendia a aferir pressão e ouvir histórias de pessoas que a vida não pegará leve.


Aos sete anos, ao voltar das férias escolares, na sala de aula, a professora pediu para cada aluno contar como havia sido suas férias. Quando chegou minha vez, já com um pé na dramaturgia, encenei o primeiro parto normal que eu havia auxiliado. Contei aos colegas que a cegonha não existia, que chegávamos ao mundo em uma cachoeira de sangue, orquestronada aos berros da mãe. Logicamente, minha mãe foi chamada na escola. Houveram reclamações de outros pais, que se aquilo era comum na minha família, nas outras não era. Me pediram para pegar leve nos “causos” da vida. Eu havia assustado as crianças. Hoje penso que isso era impossível, eu era uma criança, admirada com o mundo novo, mas aprendi que minhas histórias não eram para todos os ouvidos. Porém segui falando!


Penso, que naquele momento eu aprendi um pouco sobre subjetividade. Achava realmente maravilhoso viver a medicina com meu pai nas férias. Intrigante demais escutar as pessoas e gostava do cheiro de hospital. Porém, isso para outras pessoas não era “normal”.


Tive certeza, quando ao acompanhar a sutura na boca de uma criança, picada por um beija flor (não me pergunte como isso aconteceu, até hoje não sei) minha prima que era da mesma idade que eu, estava passando uns dias conosco, desmaiou durante o procedimento. Meu pai largou o portagulha e foi socorrê-la. Ali eu entendi, mais um pouco sobre subjetividade, quando fui tentar entender, por qual motivo ela havia passado mal, se o paciente era outra criança. A minha lógica era a razão, mas entendi que cada um tem seus limites e talvez sua própria razão.


São tantas as histórias, da minha vida na medicina, que em um só artigo não caiba. Me constitui entrelaçada com essa ciência. Mas por sorte a minha e dos meus pacientes, hoje em dia, posso dizer com certeza, que ela não é a resposta para todas as dores!


Lembro do meu pai dizendo, que os pacientes, na sua grande maioria, necessitavam muito mais de escuta, que do remédio. Bem, ele estava me apresentando a psicanálise, sem nunca ter lido Freud.


Entendi, que a medicina é de grande serventia, mas tem um saber oco sobre o sujeito. Principalmente quando perde suas bases filosóficas. Assim como a filosofia está acima da ciência, o sujeito antecede qualquer patologia. Eu posso saber tudo sobre como diagnosticar e tratar um transtorno depressivo, mas sobre o processo do adoecimento, é na escuta do paciente individualmente, que construo um saber junto com ele. 


Na atualidade, o imediatismo impera. Não é diferente na medicina. As pessoas buscam um remédio, para apaziguar a dor que sentem no peito. Porém, se equivocam se não entenderem a própria lógica causal. Repito, não há remédio para a vida! Você pode medicar e deve quando necessário, mas se intrigue com a sua existência, com a causa da doença. Ás vezes é preciso deixar doer até arder, á partir disso, se mover. 


Que chato deve ser uma vida não interrogada! Quase um desperdício. Para esse tédio, nem altíssimas doses de antidepressivo resolve!


Sou a primeira pessoa, a alerta em não sermos pacientes com a dor. Mas, também a olhar para a causa do adoecimento.


Romper com amarras psíquicas, gera liberdade, quase sinônimo de felicidade na condição humana.

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Dra. Gabriela Lein

Gabriela Lein é médica atuante em psiquiatria, saúde de família e emergência. Atravessada pela psicanálise, há uma década atua em setor privado e público, realizando um exímio trabalho de investimento no indivíduo como cerne da vida. Visto esse modo atuante singular e impactante, promove saúde por onde passa, em âmbito nacional e internacional. Divulga seus questionamentos e inspira em suas redes sociais tanto no instagram quanto podcast, com base no conhecimento que tem do sofrimento humano real. Por aqui, semanalmente, acompanhem ela questionando o mundo em voz alta.

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