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Sobre Os Medos

Publicado em 20/04/2021 - 14:27 Por Daniela Pesconi-Arthur
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Créditos da imagem: blueberry Maki on Unsplash

Você tem medo de quê?


Eu sempre AMEI parques de diversões. A primeira vez que andei numa montanha russa foi na Space Mountain na Disney World. Eu tinha 17 anos. Mesmo tendo ido ao Playcenter (em São Paulo) várias vezes, quando meus primos entravam na montanha russa, eu ficava sempre de fora, lá de baixo, olhando. Eu, hein? Passar medo à toa? Não, obrigada. 


Mas quando me vi diante do Space Mountain, parecia tão legal!  Todos que estavam comigo ia entrar, e eu resolvi entrar também. Quem gosta (ou tem pavor, mas já pelo menos experimentou) esse tipo de atração, sabe bem como é: você senta lá no carrinho, coloca aquele “cinto de segurança" de ferro até dar um “click”. E espera. A  antecipação vai acumulando, as mãos vão ficando suadas, o coração começa a bater mais forte. Na montanha russa, a gente começa com o carrinho andando beeeem devagar, e a gente vai ouvindo o cla-clack cla-clack cla-clack cla-clack cla-clack dele nos trilhos. Aí, quem tem muito medo mesmo, já até desistiu, mas fazer o quê? Tá na chuva é pra se molhar, certo? O jeito é continuar. Quando chegamos lá em cima, os mais corajosos (eu? Só por um milésimo de segundo!) de olhos abertos. Os “arrependidos”, de olhos o mais apertados possível. E lá vem o despenca! E a partir do despenca, é na velocidade mesmo. A gente não sabe se os nossos órgãos internos estão indo, se estão vindo, na hora dos loopings e de ficar de cabeça pra baixo, o intestino já fez amizade com a amígdala, e a gente nem sabe mais onde e que foi parar o coitado do nosso coração (é do lado direito do peito? do lado esquerdo? Peraí, caramba, tô sentindo ele bater na minha boca!)


Na minha primeira experiência, eu acho que a adrenalina foi tanta, que eu fiquei meio bagunçada e, pasmem, entrei na fila mais quatro vezes! E amei! E a partir daí, perdi o medo. E foi então que inventaram o tal do Elevador. "Alguns anos mais tarde, tive a oportunidade de ir ao Hopi Hari com meus alunos da Cultura Inglesa. A tal da La Tour Eiffel. E lá fiquei eu, olhando meus alunos todos animados pra subir “num trem que ia cair”. Sê besta, sô! Confesso que não resisti à “pressão social” (os alunos que ficaram me zoando porque eu tava com medo) e subi. Como já disse ali acima, a partir do “click” do travamento do assento de segurança, você já se arrepende (eu me arrependi no momento que percebi que meus pés estavam balançando no ar e o chão ia ficando longe, longe). Gente, pois eu lá de baixo, enquanto observava meus alunos, pensando se eu ia criar coragem, tinha contado os segundos entre o “click” e o despenca. Então, fiz o que me restava fazer:  contei. 1… 2… 3… 4… Socorro, tô caindo!! Eu não consigo explicar o que senti, a não ser um vazio completo dentro de mim. Não me pergunte onde foram parar tudo o que eu tenho aqui dentro do meu corpo, porque sinceramente, eu não sei. Devem ter se escondido de tanto medo. De terror, pra dizer a verdade. Nunca mais. Nunca mais, mesmo.


E desde então, acredito que à medida que a gente vai ficando mais experiente da vida, a gente vai começando a ter mais medos. Alguns, bobos em geral. Outros, bobos pros outros, mas não pra gente mesmo. Eu por exemplo, tenho medo de ETs. (não vou entrar na questão se eles existem ou não) Não gosto de ouvir falar, nem ver na televisão. Se for à noite, antes de dormir, então, pior ainda. Outro dia desses, fui assistir um episódio de uma série que eu sigo, e me botaram um extraterrestre lá (pra quê, eu não sei! Tava tão boa!). Desliguei na hora. Pensei: assisto no sábado, de manhã. Que é pra ter o resto do dia pra esquecer! Filmes de terror, principalmente que têm espíritos, igualzinho. Nem parece que quando era adolescente eu maratonava os filmes de Freddy Krueger e Sexta-Feira 13 com meus amigos e minhas primas. Vai entender. Cresci e fiquei medrosa. Afff. Na semana passada, tava sozinha na sala, estudando. Dai meu amigo, o José Jr, que também escreve aqui pro MegaMinas me mandou um WhatsApp com um pedacinho do vídeo dele da semana. “Dani, posso te mandar um vídeo pra ver se você sente alguma sensação estranha quando ouvir? Ouve de fone.” Aliás, não vou contar, não. Vocês precisam assistir. É um vídeo muito bacana. Assiste ele aqui: https://megaminas.com.br/colunistas/descubra-comigo/eremiterio-de-poggio-conte-o-lugar-onde-o-tempo-parou 


Mas e os medos que adquirimos quando “adultamos”? Dei essa volta toda (devaneios, você vê por aqui!) pra criar coragem e te contar dos meus medos de hoje em dia (fora os que já falei ali acima, claro, e de outros que você pode ler aqui). 


Pois bem. Dia 28 de março de 2020 foi o último dia que trabalhei do meu escritório na Cardiff University, como ele costumava ser: eu, mais cinco colegas e um monte de alunos, professores e outros colegas entrando e saindo o tempo todo. Depois que o governo decretou que quem pudesse trabalhar de casa, que trabalhasse de casa, foi exatamente o que nós tivemos de fazer. Em três dias, a universidade migrou todo tipo de contato com alunos para o online, e nós que trabalhávamos em escritório, começamos a fazer o home office (eu trabalhava pra Escola de Ciências da Saúde, e alguns departamentos precisaram continuar no campus, porque eles ajudaram a treinar os alunos de enfermagem pra poder ajudar nos hospitais) Eu, que sou gordinha e tive asma quando era adolescente, não saí de casa até meio de setembro, quando após uma força-tarefa gigantesca na universidade, começamos a voltar ao meu escritório, uma pessoa por vez, com sistema de mão única pra entrar e sair do prédio (alguns departamentos não voltaram até hoje!). Aliás, pra não contar mentiras aqui, saí, sim. Visitei a minha sogra, que estava na fase terminal de um câncer agressivo, várias vezes. Depois que ela se foi (em maio de 2020), eu fiquei praticamente sem sair de casa até setembro. Com medo. Com muito medo. Medo de pegar COVID, medo de passar pro meu marido - que também é de grupo de risco, pois tem doença renal crônica -, medo de ter de ficar internada num hospital sem poder ver ninguém, e de ser entubada e tals. Enfim, o que a gente já sabe que pode acontecer,  tanto com quem sofre de comorbidades, como também com gente saudável. Só esse “pode” acontecer, me dá arrepios.


(Foto: Jasmin Sessler on Unsplash - inclusive, escolhi essa foto de propósito. Aqui, quando se falou em lockdown pela primeira vez, os papéis higiênicos desapareceram das prateleiras dos supermercados. Ó o medo que as pessoas tinham!)

Gente, eu não sei como anda a cabeça de vocês, mas essa situação me deixou num estado de ansiedade tão grande, que só oração, e páginas e mais páginas de diário escritas pra acalmar! Hoje, aqui no Reino Unido, estamos em uma situação mais “controlada” - o que ainda não quer dizer que estamos tranquilões, saindo por aí aglomerando e fazendo festas e tals  (bom, tem gente que tá, né, desde o começo, mas discutir isso não é o propósito deste texto). Mas tem países da Europa, como a Itália, a França, Holanda, e outros, por exemplo, que ainda no começo de abril estavam em algum tipo de lockdown (fonte: https://www.bbc.co.uk/news/explainers-53640249 - reportagem de 9 de abril de 2021, em inglês)


Mas… como estou falando de medos, deixa eu voltar aqui. O meu medo maior, principalmente por morar longe da minha família e dos amigos que eu amo, é que eles não estão seguros. Infelizmente, o Brasil (por uma combinação de fatores) é hoje o epicentro global da pandemia no mundo(Fonte: https://www.bbc.co.uk/news/world-latin-america-56657818 - reportagem de 7 de abril de 2021, em inglês). Na Índia, apareceram novas variantes do vírus (que já chegou no Reino Unido)… E a ansiedade vai aumentando. E assim vamos vivendo. Um dia após o outro, um pronunciamento do Primeiro Ministro atrás do outro.


Medo bobo? Pode ser? Preocupação exagerada? Pode ser também. Eu sei que muita coisa está mudando e ainda vai mudar por causa dessa pandemia, e que aos poucos a gente vai ter que se acostumar ao novo normal. Mas enquanto isso, andamos nessa montanha-russa de mil loopings, despencas, frios na barriga e corações na boca.


E você, como tem encarado essa pandemia? 

E você, tem medo de quê?


Beijão e inté! 

Dani


P.S. Lembrete: Se quiser continuar o papo, já sabe onde me encontrar: AQUI ou AQUI


Tags: devaneios, mineira na terra da Rainha, adultar, medos, COVID-19
 Daniela Pesconi-Arthur Daniela Pesconi-Arthur
Devaneios Mineiros Na Terra Da Rainha

Daniela Pesconi-Arthur é mineira de Uberlândia e formada em Letras - Inglês pela UFU, com mestrado em Literatura Inglesa e Escrita Criativa pela Cardiff Metropolitan University. Apaixonada por educação e pela língua, por mais de 20 anos, foi professora de inglês no Brasil, na Itália e no Reino Unido. Enquanto membro da Lapidus International, criou a série de workshops online e presenciais “Write Yourself” (“Escreva-se”) e em 2016 publicou o seu primeiro livro Loveandpizza.it. Atualmente cura o seu site ‘A Casa na Praia’, onde não só fala da sua vida de expatriada no País de Gales (UK), como dá dicas sobre escrita, criação de blogs, além de orientações e mentorias de negócios para brasileiras expatriadas que querem se tornar empreendedoras. Daniela está finalizando um curso de Hipnoterapia Transformacional Rápida (RTT), com a qual pretende ajudar ainda mais pessoas a transformarem suas vidas.

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