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Sobre O Casamento, Jardins E Minhocas

Publicado em 13/04/2021 - 14:18 Por Daniela Pesconi-Arthur - Artigo editado em 13/05/2021 - 05:56
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Créditos da imagem: Foto de arquivo pessoal

Um dos passatempos favoritos dos britânicos, quando o tempo está bom, é cuidar do jardim. Eu não gosto. Não me entendam mal. Eu AMO jardins. Adoro passear neles, apreciar as flores, me sentar num jardim e ouvir os passarinhos enquanto leio um livro ou brinco com o Cookie. Só não tenho paciência nem dom pra cuidar. Eu juro que tentei. Quando era mais nova, fazia parte das minhas tarefas varrer o jardim lá de casa, em Uberlândia. Eu não via propósito naquilo, já que as flores e folhas continuavam caindo, mas mãe é mãe, e se tinha de fazer, tinha de fazer, né?  


Muuuuitos anos depois, já aqui na minha casa no País de Gales, mais uma tentativa de jardinagem começou (e acabou) nessa cena: eu, pulando quase 2 metros de altura (seguido de um grito de terror, claro) depois de encontrar um sapo enterrado no cantinho do quintal que eu estava cavando. Como diabos aquele sapo sobreviveu, vivendo enterrado lá sei lá eu por quanto tempo, eu não faço a menor ideia. Só sei que estava muito vivo e pulou no meu pé.


 Minha mãe adoraaaaava cuidar do jardim. Se ela ainda fosse viva, teria se apaixonado pelo nosso jardim, e até consigo imaginar os altos papos que ela e meu marido teriam, planejando tudo. Meu marido é excelente pra cuidar de jardins. Ele gosta tanto que até fez um curso de design de jardins (o que foi super útil quando nos mudamos pra nossa casa, pois morava aqui uma senhorinha viúva, bem velhinha, e o jardim estava bem abandonado). Como eu já disse, eu gosto de ver as flores; gosto de regar as plantas, andar descalça na grama, tirar fotos das flores, pássaros, borboletas e joaninhas. Só não me peça para me ajoelhar ali e cavar e cavar e cavar, ou arrumar ou capinar o jardim. Eu fico encarregada dos sucos geladinhos, ou do café, se você preferir!


 Agora que comecou a esquentar um pouco por aqui, meu marido está trabalhando no nosso jardim. Ele está plantando, cortando e replantando, cavando aqui e ali, escolhendo cuidadosamente quais plantas vai usar e onde vai plantá-las. Ele passa horas no jardim e geralmente até sente uma dorzinha nas costas no final do dia, mas ele termina o dia e está tão feliz! Eu, tenho estudado nas “horas vagas'' (que é isso mesmo?) Meu cérebro trabalha tanto quanto os braços e pernas do meu marido trabalham no nosso jardim. Nem sempre é fácil concentrar. Estou constantemente pensando sobre as coisas, investigando assuntos, estudos de caso, praticando o que eu aprendo e às vezes fico estressada e meio mal-humorada, mas quando eu termino minhas aulas da semana, também estou tão feliz!


 Enfim ... No fim de semana da Páscoa, feriado prolongado aqui (aqui os feriados caem todos nas segundas-feiras!),  ele me perguntou se eu poderia ajudá-lo no jardim Uh-oh... Eu tinha algumas coisas a fazer, terminar minhas aulas da semana e escrever dois artigos,  mas eu não queria dizer não para ele. Então, quando eu disse que o ajudaria assim que eu terminasse minhas coisas, ele falou: "Não se preocupa, eu vou fazendo aqui!” Ufa! Confesso que fiquei aliviada!


Terminei uma das minhas aulas e fui lá fora levar um suco (eu disse que sou boa nisso!). Ele estava tão animado para continuar o trabalho que eu já arregacei as mangas pra ajudar pelo menos um pouco. Como agora temos o Cookie, e ele cresceu e ficou mais esperto, precisamos cobrir algumas áreas do jardim pra ele não se enfiar, ou cavar, ou fugir pra rua (não temos muros aqui em casa).  E precisava cavar de um lugar e levar a terra pra outro lado do jardim, e porque há muitas pedrinhas, meu "trabalho" era peneirar a terra (e de acordo com ele, eu fiz um bom trabalho! Oba!). Ok. Isso eu dou conta de fazer. Lá fui eu.


Não gosto de sujar as mãos, ficar com terra debaixo das unhas (justificado porque cuidar do jardim não é um dos meus passatempos favoritos, né?) e, principalmente, não gosto de insetos e nem de minhocas. Mas ver meu marido tão feliz por me ter por perto, ajudando ele a fazer algo que ele gosta tanto, me deixou super feliz. E enquanto eu peneirava a terra, comecei a encontrar minhocas, muitas minhocas (meu pai, que adora pescar, ficaria super hiper empolgado!). Eu não queria que as coitadas morressem, então coloquei de lado um galhinho para usar sempre que encontrava uma, colocando a dita cuja na terra boa. Sim, um galhinho. De jeito nenhum eu iria encostar nelas (se bem que eu me lembre de botar as coitadinhas no anzol quando ia pescar com meu pai .. Argh!).


 “Cuidar” daquelas minhocas pra que elas não morressem, ajudar meu marido com algo que eu nem gosto de fazer, e ver o quanto ele estava contente, me fez pensar sobre nosso relacionamento. Bem, sobre o casamento em geral. Estamos casados ​​há 12 anos. Tivemos momentos difíceis, desafios como todo casal normal, tivemos que nos adaptar às diferenças culturais um do outro e assim por diante. Eu sei que as pessoas dizem que a individualidade em um casamento é muito importante e tals. Concordo totalmente com isso, mas de certa forma somos tão dependentes uns dos outros! Em quase tudo. Fazemos muitas coisas juntos. Temos muitas coisas em comum, e mesmo que cuidar do jardim não seja uma delas, ainda assim ele gosta de cuidar, e eu aprecio o trabalho que ele faz.


De volta ao casamento, jardins e minhocas. Por que minhocas? Bem, enquanto eu estava peneirando a terra, havia muitas minhocas, como eu já disse, e eu não queria que elas morressem. (se fossem aranhas, seria uma história totalmente diferente) Então eu estava lá, peneirando e “cuidando” das minhoquinhas que apareciam,  para que pudesse pegá-las com meu graveto e colocá-las no balde com a terra boa.


Quantas vezes em nossos relacionamentos (especialmente em casamentos, que deveriam “durar para sempre”) olhamos através da terra rochosa e cheia de ervas daninhas e “resgatamos as minhocas”? O quão difícil pode ser parar o que você está fazendo por um tempo para estar perto daquela pessoa que você tanto ama e que está tão feliz apenas por ter sua companhia?


Eu não gosto de cuidar do jardim. Mas naquele dia eu “salvei” muitas minhocas. Me diverti com meu marido, conversamos, brincamos, nos abraçamos e nos beijamos várias vezes durante aquelas duas horas que “trabalhamos” no jardim. E sabe de uma coisa? Ele não foi o único que ficou grato pela minha - muito pequena - ajuda. Eu senti uma baita gratidão por poder passar aquelas 2 horas com ele. E isso me deixou feliz.


E quanto ao meu curso e os meus artigos? Eu não teria preferido estar dentro de casa, fazendo as minhas coisas? Bom, como ele estava super cansado, ele foi dormir bem cedo aquela noite. Dissemos nosso “boa noite, amo você” de sempre, e nos demos um beijo de boa noite. Assim que ele foi dormir, eu me sentei de frente ao laptop e fui fazer o que eu precisava fazer. Feliz, com o coração quentinho, em paz e cheio de amor.


Beijão e inté! 

Dani


P.S. Lembrete: Se quiser continuar o papo, já sabe onde me encontrar: AQUI ou AQUI



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Tags: devaneios, mineira na terra da Rainha, casamento
 Daniela Pesconi-Arthur Daniela Pesconi-Arthur
Devaneios Mineiros Na Terra Da Rainha

Daniela Pesconi-Arthur é mineira de Uberlândia e formada em Letras - Inglês pela UFU, com mestrado em Literatura Inglesa e Escrita Criativa pela Cardiff Metropolitan University. Apaixonada por educação e pela língua, por mais de 20 anos, foi professora de inglês no Brasil, na Itália e no Reino Unido. Enquanto membro da Lapidus International, criou a série de workshops online e presenciais “Write Yourself” (“Escreva-se”) e em 2016 publicou o seu primeiro livro Loveandpizza.it. Atualmente cura o seu site ‘A Casa na Praia’, onde não só fala da sua vida de expatriada no País de Gales (UK), como dá dicas sobre escrita, criação de blogs, além de orientações e mentorias de negócios para brasileiras expatriadas que querem se tornar empreendedoras. Daniela está finalizando um curso de Hipnoterapia Transformacional Rápida (RTT), com a qual pretende ajudar ainda mais pessoas a transformarem suas vidas.

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