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O Lobo Guará E A Morte

Publicado em 16/10/2020 - 12:35 Por Jeremias Brasileiro - Artigo editado em 16/10/2020 - 13:05
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Créditos da imagem: Guarazinho à beira do asfalto. Ilustração de Aléx F.S.

Tempos de queimadas suscitam reflexões a respeito do meio ambiente, e, nada mais oportuno do que agora, em um tempo que falar do Lobo Guará faz parte do cotidiano popular. Guarazinho, filhote de Lobo Guará, enfrenta uma jornada para escapar das queimadas e da morte.

Cansados! Cansados! Chegaram por fim ao asfalto. Vinham de longe! Bem longe! Das florestas que os tratores derrubaram, dos cerrados que as queimadas invadiram, das montanhas que as dinamites explodiram, das margens dos rios que as mineradoras destruíram.

Só chegaram perto do asfalto, o Macaco Espertinho, o Bicho Preguiça, a Capivara, o Tatu Galinha e o Lobo Guarazinho. O Macaco Espertinho foi o primeiro que viu – Olha lá! Olha lá! A Morte do outro lado! Do outro lado do asfalto! Olha lá! Olha lá!

Tatu Galinha vendo aquela correria, pensou bem no seu destino e falou aos companheiros: – Euuuuuuuuu! Prefiro passar minha vida cavando um buraco debaixo do asfalto. A Capivara querendo tirar uma de esperta passou um lado do asfalto e esqueceu-se de olhar do outro e morreu atropelada.

E a Morte ria que ria, do outro lado do asfalto. Bicho Preguiça marcou bobeira, adormeceu no acostamento e nem viu de que morreu! E a Morte ria que ria do outro lado do asfalto. O Macaco Espertinho, todo, todo esfomeado, viu de longe! Bem de longe! Um caminhão de bananas e não pensou nem um segundo. Vapt e vupt! Morreu sem comer as bananas. E a Morte ria que ria do outro lado do asfalto.

Foi assim que o Guarazinho descobriu a lei do asfalto e correu o resto do dia. Guarazinho tanto aprendeu no asfalto, que quando chegou a tarde, já estava do outro lado. A Morte ficou raivosa e com uma vontade mortal de alcançar o Guarazinho.

A Morte disfarçou-se então de vento e tentou de todo jeito derrubar o Guarazinho. Mas como estava treinado de correr no asfalto, Guarazinho disse que era bem mais veloz que o vento. Guarazinho correu muito! Correu tanto! Que a Morte desajeitada, já cega de tanta raiva, bateu nos troncos das árvores e desabou qual melancia, esparramando-se no chão.

O coração de Guarazinho batia angustiado, sequer tinha refeito do susto da Morte vestida de vento. Mas a Morte desesperada, toda esfolada do tombo, fingiu ser um caçador, só para matar Guarazinho, da mesma forma que um dia, havia matado seus pais.

Guarazinho todo convencido ainda zombou da morte: – Sou mais veloz que os carros! – Sou mais veloz que os ventos! – Sou mais veloz que as balas. Pammm! Toda a plantação de soja ouviu o eco da Morte! Gaviões, perdizes e toda passarinhada ora corriam, ora voavam para qualquer lado. Chiiiiiiiiiiiiiii. E a bala alucinada procurava o seu destino que era o corpo franzino, do filhote Guarazinho.

Guarazinho só correndo... só correndo, parecia até voar. E a bala quase que chegando, tão perto que já estava na sombra de Guarazinho. Foi então que Guarazinho sentiu o que ainda restava do pouco ar do cerrado e percebeu nesse momento que a sua salvação natural só tinha assim. De repente escureceu! E a bala que não queria perder a sombra de Guarazinho já não via a sombra de mais ninguém e assim passou a noite querendo encontrar Guarazinho.

Guarazinho se viu só! E chorou... Uivouuuuu... Chorou...Trovoadas silenciavam tudo em volta! Guarazinho parecia que rezava!: – Chuva forte, Chuva mansa, que de dia e de noite não descansa! Me ajuda oh Chuva fina, que eu sou um Guarazinho, pequenino igual criança! Como faço pra fugir dessa Morte que me cansa?

O Trovão preocupado mandou a Chuva perguntar qual motivo que fazia Guarazinho tanto chorar: – é que a Morte quer me pegar! Guarazinho respondeu. A Chuva que há muito tempo não se entendia com a Morte, chegou perto de Guarazinho e contou-lhe um segredo guardado pelo Raio e o Trovão. Guarazinho uivouuuuu de alegria! Quero ver se a morte me pega! Quero ver se a morte me pega! E uivouuuuu que mais uivouuuuu!

Há! Há! Há! Há! Há! Há! A Morte reapareceu! E Guarazinho sumiu entre os pinheiros, surgiu no meio dos eucaliptos e a morte só há! Há! Há! Há! E chega e não pega e pega e escorrega. Agarra-se, se arrasta, se enrola. E a Morte rindo que rindo. Só há! Há! Há! Há! No que ainda existia de cerrado ameaçado pelos canaviais, parecia que Guarazinho não corria, mas voava! Pois que de correr voou-se tanto que ao chegar perto da represa, foi parar na outra margem.

E a Morte entrou na água, nadava que mais nadava, descia, subia, descia, mas quando chegou ao meio, a Morte morreu afogada. Era o segredo que a Chuva havia contado para o Guarazinho, filhote de Lobo Guará: “A MORTE NÃO SABIA NADAR!”


A Morte à beira do asfalto.  Ilustração de Aléx. F.S.

Tags: lobo guará - queimadas - morte
 Jeremias Brasileiro Jeremias Brasileiro
Crônicas e Ensaios das Gerais

Doutor em História Social pela Universidade federal de Uberlândia. É Comandante Geral da Festa da Congada da cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, desde o ano de 2005 e presidente da Irmandade do Reinado do Rosário de Rio Paranaíba, Alto Paranaíba, Minas Gerais, desde o ano de 2011. Desenvolve pesquisas sobre cultura afro-brasileira e sua diversidade nas Congadas de Minas Gerais, associando-as com o contexto educacional, em uma perspectiva epistemológica congadeira, de ancestralidade africana. Um intelectual afro-brasileiro reconhecido na obra de Eduardo de Oliveira: Quem é quem na negritude Brasileira (Ministério da Justiça, 1998), que lista biografias de 500 personalidades negras no Brasil; e na obra de Nei Lopes: Dicionário Literário afro-brasileiro (Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2011). Detentor de um dos maiores acervos digitais sobre as Congadas de Minas Gerais, constituído desde a década de 1980, historiador com vasta experiência e produção cientifica sobre ritualidades, simbologias, coexistências culturais e religiosas em oposição ao conceito de sincretismo. Escritor, poeta, possui textos de dramaturgia, crônicas, literatura afro-brasileira.

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