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Existem Animais Com Mais Sentimentos Que Seres Humanos

Publicado em 30/01/2021 - 10:45 Por Jeremias Brasileiro - Artigo editado em 13/05/2021 - 05:47
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Créditos da imagem: Animal na Fazenda. Acervo Digital Jeremias Brasileiro

Tem-se tornado comum a presença em redes sociais de animais que demonstram certas cargas sentimentais que deixam nós seres humanos boquiabertos. No entanto, essas reações são antigas e tem-se viralizado em decorrência das novas tecnologias, por isso um acontecimento recente que chamo “boi de Valadares”, suscitou-me lembranças de um evento ocorrido em 1982 na zona rural da cidade de Patrocínio no Alto Paranaíba.

 

A fuga do “boi de Valadares” ocorrida recentemente em Governador Valadares, Norte de Minas Gerais é exemplar do que pode sentir um animal. Na fila do matadouro, em direção à morte iminente, um boi de meia tonelada, cisma de não querer morrer e empreende uma fuga espetacular, daquelas cinematográficas. Em meio à boiada que uníssona seguia seu destino, esse boi resolve rebelar-se, sai da fila, arrebenta o cercado que lhe aprisionava no corredor e em disparada, sai em busca da liberdade, ainda que certamente temporária.

 

Ele tinha a opção de correr as margens do rio ou mesmo atravessar por uma ponte, mas eis que o inusitado ocorre. Imagine caro leitor! Um boi de meia tonelada se jogar no rio, e veja bem, o grande Rio Doce, imagine esse boi atravessar toda a extensão desse rio em nado firme e chegar à outra margem enquanto os magarefes apavorados corriam pela ponte? Esse “boi de Valadares” deu uma lição de resistência à morte de uma forma que nós seres humanos não estamos acostumados a perceber.

 

Esse evento como disse no início, me fez lembrar da fuga também de um boi na década de 1980. Eu trabalhava em uma fazenda que já iniciava o investimento em maquinarias para as colheitas de café. O encarregado e responsável por cuidar do gado de leite recebeu orientação para transferir um boi malhado para outra fazenda que se localizava no distrito, se não me engano, da cidade de Coromandel, uma distância considerável, motivo pelo qual o boi foi levado em caminhão boiadeiro. O traslado foi realizado com sucesso e o boi foi deixado no pasto aos cuidados de pessoas que sabiam lidar com esses animais.

 

No dia seguinte, porém, chegou a noticia de que o boi malhado não estava entre o gado, que depois de muito ser procurado, descobriram que ele tinha sumido, pois sequer na redondeza ele fora avistado. Procuras mal sucedidas foram realizadas por três dias seguidos, quando por fim acreditaram que possivelmente o boi teria sido roubado, levando-se em consideração que era um boi estimado, manso, que brincava com as crianças e as pessoas da fazenda, onde estava anteriormente.

 

Oito dias após o sumiço do boi, eis que ele é encontrado de manhã na fazenda de origem e o vaqueiro entusiasmado percebeu que nenhum arranhão ou machucado existia. O boi voltara para a casa. As especulações a respeito da jornada de seu retorno eram muitas, embora uma questão ficara evidenciada. O boi sentiu saudades e por isso ousara retornar.


Como foi que ele voltou? Era difícil entender sua trajetória de volta, existia rios, existia cercas, mata-burros, estradas, asfalto. Como ele conseguira passar por todos esses lugares e oito dias depois chegar à fazenda? Por isso penso que não devemos comparar boiadas, animais, com as pessoas, afinal, existem animais com mais sentimentos do que nós seres humanos.

Tags: animais, sentimentos, liberdade
 Jeremias Brasileiro Jeremias Brasileiro
Crônicas e Ensaios das Gerais

Doutor em História Social pela Universidade federal de Uberlândia. É Comandante Geral da Festa da Congada da cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, desde o ano de 2005 e presidente da Irmandade do Reinado do Rosário de Rio Paranaíba, Alto Paranaíba, Minas Gerais, desde o ano de 2011. Desenvolve pesquisas sobre cultura afro-brasileira e sua diversidade nas Congadas de Minas Gerais, associando-as com o contexto educacional, em uma perspectiva epistemológica congadeira, de ancestralidade africana. Um intelectual afro-brasileiro reconhecido na obra de Eduardo de Oliveira: Quem é quem na negritude Brasileira (Ministério da Justiça, 1998), que lista biografias de 500 personalidades negras no Brasil; e na obra de Nei Lopes: Dicionário Literário afro-brasileiro (Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2011). Detentor de um dos maiores acervos digitais sobre as Congadas de Minas Gerais, constituído desde a década de 1980, historiador com vasta experiência e produção cientifica sobre ritualidades, simbologias, coexistências culturais e religiosas em oposição ao conceito de sincretismo. Escritor, poeta, possui textos de dramaturgia, crônicas, literatura afro-brasileira.

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