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Anjos Negros Não Existem: Natal, Racismo E Poder

Publicado em 19/12/2020 - 13:50 Por Jeremias Brasileiro - Artigo editado em 19/12/2020 - 13:58
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Créditos da imagem: Uma família de fé. Década de 1970. Acervo Digital Jeremias Brasileiro.

 

Gostaria imensamente de pensar em um Natal que pudesse contemplar todas as cores do arco-íris. Gostaria sinceramente de refletir sobre esses tempos a partir de uma vivência em que o natal era carregado de expectativas positivas, principalmente para as crianças. Gostaria enfim de acreditar que no século XXI não existissem essas questões de racismo que atravessam os tempos e permanecem na sociedade, e, Uberlândia infelizmente é também um exemplo triste dessa realidade. 

Vejamos como na década de 1950, as crianças negras eram vistas sob o olhar educacional. Nas narrativas dos atores sociais é perceptível a noção de resistência conforme surge uma tomada de consciência – e fazer uso de suas vivências, isso para enfrentar o racismo e as práticas racistas, independente do lugar que acontecem. O relato da senhora Dalva do Nascimento, 95 anos de vida, exemplifica essa questão.


A diretora do grupo Bueno Brandão tinha lançado um concurso em que o aluno com melhor procedimento e a melhor nota iria coroar Nossa Senhora (do Rosário). Eu ganhei! Fui escolhida para fazer a coroação! Mas acontece que as professoras Fernandes e Melquíades [nomes fictícios] chegaram até a diretora Virginia [nome fictício] e falaram que ela estava doida, que anjo preto não existia. Eu chorando, fui falar com o Cônego Eduardo. Falei que não podia coroar, já tinham até a asa de anjo feita pra mim, mas eu era preta e não tinha anjo preto. Ele pegou minha mão, foi até o grupo Bueno Brandão e passou um sermão nas professoras: como fazem isso com uma criança? Uma inocente? Com a religião? Não existe cor pra anjo! Aí, eu não quis mais coroar Nossa Senhora (do Rosário), minha mãe deixou e eu fui frequentar e estudar o catecismo do espiritismo. (Dalva do Nascimento, 2014).


O racismo é algo que se apresenta de forma contínua. Os congadeiros e a instituição Irmandade do Rosário não ficaram, e, permanecem não estando, imunes aos atos e atitudes discriminatórias. Isso contribui para a continuidade de determinadas práticas de vivências e de sobrevivências, a envolver disputas por lugares, por histórias, por memórias. Nesse contexto, a discriminação racial, repercute em 1959, quando um vigário da Catedral fez uma pregação condenando os congadeiros e de igual forma: a comunidade negra. Além de ser em um sermão dominical, sua intenção era de acabar com a festa a partir daquele ano.


Com a criação da Diocese, o primeiro bispo, Dom A1mir Marques, revogou a decisão do vigário e manteve a festa. A revolta do vigário era em consequência dos congadeiros se recusarem pagar pelos serviços de celebração de missas, bem como das atividades concernentes à festa da Congada. (Carlos Cézar Moreira, 1990). Nem para todos: era a igreja, uma cidade para poucos, o racismo era naturalizado, mesmo que explícito fosse, vigorava espontaneamente, inclusive na figura religiosa de um monsenhor. 

Os tempos de agora são complicados por terem um novo elemento institucionalizado de forma explícita, trata-se da questão política, do negacionismo, da homofobia, do xenofobismo, do racismo escancarado. As pessoas estão se sentindo à vontade para agredir, para ameaçar, isso por se sentirem dentro de uma bolha de impunidade, afinal de contas: o discurso do Estado Brasileiro, a partir de suas lideranças exponenciais, pratica e amplifica, em suas vozes, esses atos discriminatórios. “Ora! Se meu chefe Mor faz assim, eu também posso fazer!” 

Leitores! Essa é a natureza dessa crônica: pensar o porquê do racismo continuar atuante e liberado nesse país e sem poupar crianças e adolescentes. O Natal deveria ser como um arco-íris que abraçasse todas as crianças do mundo, contudo o racismo continua inclusive impactando a vida de adolescentes, quando não os matando, e dizem até que muitos dos crimes são praticados por soldados negros, mas que ironia, pois quem mata na realidade é o Estado. Eu gostaria que as crianças e jovens negros, principalmente, pudessem celebrar um natal de fé, por outro lado penso que todos devem ficar em suas casas e isso não só por causa da COVID. Leitores! Tenho dito.  

Tags: Religião, racismo, natal e política
 Jeremias Brasileiro Jeremias Brasileiro
Crônicas e Ensaios das Gerais

Doutor em História Social pela Universidade federal de Uberlândia. É Comandante Geral da Festa da Congada da cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, desde o ano de 2005 e presidente da Irmandade do Reinado do Rosário de Rio Paranaíba, Alto Paranaíba, Minas Gerais, desde o ano de 2011. Desenvolve pesquisas sobre cultura afro-brasileira e sua diversidade nas Congadas de Minas Gerais, associando-as com o contexto educacional, em uma perspectiva epistemológica congadeira, de ancestralidade africana. Um intelectual afro-brasileiro reconhecido na obra de Eduardo de Oliveira: Quem é quem na negritude Brasileira (Ministério da Justiça, 1998), que lista biografias de 500 personalidades negras no Brasil; e na obra de Nei Lopes: Dicionário Literário afro-brasileiro (Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2011). Detentor de um dos maiores acervos digitais sobre as Congadas de Minas Gerais, constituído desde a década de 1980, historiador com vasta experiência e produção cientifica sobre ritualidades, simbologias, coexistências culturais e religiosas em oposição ao conceito de sincretismo. Escritor, poeta, possui textos de dramaturgia, crônicas, literatura afro-brasileira.

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