Faça login na sua conta!

Ainda não tem uma conta? Cadastre-se agora mesmo!

Mega Colunistas

Colunistas

A Tela Branca E O Código Do Olhar

Publicado em 12/12/2020 - 08:51 Por Jeremias Brasileiro - Artigo editado em 12/12/2020 - 08:56
destaque
Créditos da imagem: Livro: 25 anos movimento negro, 2006.

São as esperanças de mundos que nos conduzem às reflexões intimistas. Reflexões estas que abarcam uma coletividade imensa e produz sentimentos ou estranhamentos sociais de violências. Violências naturalizadas sem precedentes no Brasil. Há uma tela do olhar que insiste em ver o outro (negro) como sujeito histórico e social nas mesmas condições de um (branco) principalmente nos lugares públicos, e dessa forma, a violência racial simbólica de todos os santos dias se torna regularmente também naturalizada como violência racial física. 

No campo da violência física, muitos conhecidos meus procuram justificativas históricas e por vezes divinas para minimizar as agressões aos corpos negros, quer sejam em lojas, supermercados, ruas ou espaços educacionais:

– sempre foi assim! – isso não vai parar! – tadinha das crianças, foi vontade de deus né!

Essa minimização se transforma em senso comum e vira discurso racista utilizado como mimimi. Balas atravessando corpos de crianças negras, sujeitos espancados por usarem tênis, sapatos novos em lojas e supermercados e tratados como ladrões: nada tem a ver com mimimi. 

São nesses lugares que a cor da pele pesa. Existe um código que estrutura uma linha de suspeição e essa tela branca do olhar filma os corpos negros, sejam jovens ou adultos, mulheres ou homens, como os potenciais suspeitos e contra esses se justificam as brutalidades, os espancamentos e até assassinatos. Ao contrário dos corpos brancos quer sejam de mulheres ou homens, esses quando em seus momentos furiosos acima da lei e da razão, são tratados com humanidade, cuidados exclusivos, uma vez que diante desses, a impunidade do código da tela branca não se apresenta como segurança necessária em caso de justiçamentos. 

A violência racial simbólica também é bem explicita para quem a vive no dia a dia e se explica por meio de diálogos que ocorrem em várias situações, das quais é possível citar algumas já vivenciadas inclusive por este autor: Você minha conhecida branca, se de repente estiver jogando água no seu carro novo, jamais terá o seu vizinho novo a lhe perguntar: 

– Oi! Quanto você cobraria pra lavar meu carro? Você meu conhecido branco que mora em uma residência padrão classe média, ao atender um chamado ao portão, não vai ouvir essa frase: – Olá, tudo bem? Posso falar com o dono da casa ou dona, se estiverem? Ao adentrar um restaurante, não vão ser recepcionados assim por um cliente: – Psiu! Pode me trazer o sal? É dessa tela branca que falamos! Cujo código de olhar determina consciente o lugar social dos corpos negros na sociedade brasileira ainda em pleno século XXI.

Tags: preconceitos, racismos, atualidade
 Jeremias Brasileiro Jeremias Brasileiro
Crônicas e Ensaios das Gerais

Doutor em História Social pela Universidade federal de Uberlândia. É Comandante Geral da Festa da Congada da cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, desde o ano de 2005 e presidente da Irmandade do Reinado do Rosário de Rio Paranaíba, Alto Paranaíba, Minas Gerais, desde o ano de 2011. Desenvolve pesquisas sobre cultura afro-brasileira e sua diversidade nas Congadas de Minas Gerais, associando-as com o contexto educacional, em uma perspectiva epistemológica congadeira, de ancestralidade africana. Um intelectual afro-brasileiro reconhecido na obra de Eduardo de Oliveira: Quem é quem na negritude Brasileira (Ministério da Justiça, 1998), que lista biografias de 500 personalidades negras no Brasil; e na obra de Nei Lopes: Dicionário Literário afro-brasileiro (Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2011). Detentor de um dos maiores acervos digitais sobre as Congadas de Minas Gerais, constituído desde a década de 1980, historiador com vasta experiência e produção cientifica sobre ritualidades, simbologias, coexistências culturais e religiosas em oposição ao conceito de sincretismo. Escritor, poeta, possui textos de dramaturgia, crônicas, literatura afro-brasileira.

Leia também: Atravessar A Pinguela Do Santa Mônica Para O Tibery