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A Árvore Da Resistência E A Folia De Reis Centenária

Publicado em 26/10/2020 - 15:37 Por Jeremias Brasileiro - Artigo editado em 26/10/2020 - 15:51
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Créditos da imagem: Folia de Reis da Zona Rural de Rio Paranaíba -MG. Jeremias Brasileiro, 2019.

O projeto de globalização, industrialização e tentativa de criação de uma homogeneização cultural, tem feito com que diversas manifestações culturais tradicionais corram sérias ameaças de esquecimento e em alguns casos e lugares de total desaparecimento. Algumas delas – as culturas tradicionais – são  as mais atingidas e no que concerne às Folias de Reis, essas tentam manter as suas matrizes principais de tradição ancoradas num vivenciar de passado transmitido de geração para geração.  

Entretanto, os mestres desta tradição enfrentam uma concorrência desleal, a cultura de massa, os ritmos passageiros, os instrumentos metálicos, as vestimentas de visibilidades públicas. Neste sentido, há uma notória dificuldade de inserção dos jovens desde cedo nessas folias, pois eles fazem opções por uma cultura da modernidade, e a Folia de Reis possui características de tradição que não combinam com ritmos acelerados, danças frenéticas, trajes exóticos, onde a dimensão da fé tem sido em grande parte substituída por uma espetacularização dos rituais. 

Nesse sentido, os grupos culturais na atualidade não podem ser considerados como “coisas estanques”, “resquícios de um passado” ou “ resgate do que se perdeu”, ao contrário, é ver nas inúmeras tentativas de sobrevivência dessas culturas, uma luta cotidiana para se manterem e se fazerem respeitados em meio a um universo cultural que primazia pela modernidade descartável das produções culturais, sem levar em conta a importância que tem para a cultura popular a questão da oralidade.


Por isso associamos a resistência das Folias de Reis ainda existente no mundo rural como uma árvore que resiste às quatro estações do ano, por várias décadas, sem uma folha, toda visualmente seca, mas de uma permanência no cerrado que encanta e desafia a compreensão popular. Uma árvore que parece seca, mas ela nunca seca, não morre, continua a existir à beira de uma estrada na zona rural do município de Rio Paranaíba, Alto Paranaíba, em Minas Gerais. 

Quando dezembro chegar estaremos lá para contar essa história bonita de uma Folia de Reis resistente tal qual uma árvore que insiste em não morrer. Dezembro é tempo de Reis, de natal, de Noel. Mas dezembro na zona rural é confraternização familiar de pequenos proprietários que fazem uma peregrinação moderna, visitando a cada dia: 05 ou mais fazendas, correndo os nove dias de folia, cantando e saudando a chegada do messias, uma interação cultural religiosa surpreendente em pleno século XXI. 

Gerações que interagem em um diálogo interessante cuja musicalidade e ritmo: adaptaram-se aos novos tempos, uma vez que para continuar resistindo é preciso compreender o novo jeito de viver da juventude, portanto, a Folia de Reis da Capela São João se enraíza na terra bruta do cerrado que é amaciada pelos sons e cantorias, cavalgadas e ladainhas, toda uma vivência compartilhada em uma comunidade rural, um modo de viver e fazer cultura sem amarras institucionais. 

A relação comunicacional familiar é sem dúvida essencial para a constituição de uma Folia de Reis. Folia e família, vivência e fé. Se nesse ambiente há um “mais velho” com a preocupação de incentivar o mais novo a continuar com a tradição, muita coisa da folia então perdura, e ainda que não se saiba alguma coisa, a vontade de aprender é um início. 

A dificuldade de se manter as Folias de Reis se dá por causa do distanciamento entre as gerações atuais e aquelas consideradas mais tradicionais. Quando a interação ocorre, com respeito ao tempo que os jovens vivem, a tradição não só permanece, ela também se perpetua.


Árvore que há décadas se mantém seca na Zona Rural de Rio Paranaíba-MG. Jeremias Brasileiro, 2017.

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Crônicas e Ensaios das Gerais

Doutor em História Social pela Universidade federal de Uberlândia. É Comandante Geral da Festa da Congada da cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, desde o ano de 2005 e presidente da Irmandade do Reinado do Rosário de Rio Paranaíba, Alto Paranaíba, Minas Gerais, desde o ano de 2011. Desenvolve pesquisas sobre cultura afro-brasileira e sua diversidade nas Congadas de Minas Gerais, associando-as com o contexto educacional, em uma perspectiva epistemológica congadeira, de ancestralidade africana. Um intelectual afro-brasileiro reconhecido na obra de Eduardo de Oliveira: Quem é quem na negritude Brasileira (Ministério da Justiça, 1998), que lista biografias de 500 personalidades negras no Brasil; e na obra de Nei Lopes: Dicionário Literário afro-brasileiro (Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2011). Detentor de um dos maiores acervos digitais sobre as Congadas de Minas Gerais, constituído desde a década de 1980, historiador com vasta experiência e produção cientifica sobre ritualidades, simbologias, coexistências culturais e religiosas em oposição ao conceito de sincretismo. Escritor, poeta, possui textos de dramaturgia, crônicas, literatura afro-brasileira.

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